Viver é muito perigoso

Entre a abundância e a escassez do tempo

Vivo entre a abundância e a escassez do tempo. Na minha cabeça, sempre há tempo para fazer tudo o que ainda quero fazer neste ano. No entanto, quando começo de fato a colocar em prática tudo o que pretendo fazer, a ficha começa a cair e eu percebo que talvez eu não consiga ou não tenha tempo para realizar tudo que quero. Em outras palavras, no campo do planejamento acredito que eu consigo dar conta de tudo; na prática, eu percebo que vou ter que me esforçar muito para efetivamente fazer tudo o que pretendo. Parece que eu estou dando voltas com esse texto. Mas é exatamente isso que está acontecendo comigo. E é aí que a minha ansiedade ataca com força. Perco a minha paz e deixo algumas atividades para o outro dia, acreditando que amanhã eu vou mudar completamente e vou conseguir dar conta de tudo. Isso alivia a minha ansiedade até o próximo dia... aí eu tento colocar em prática os meus planos e a ansiedade ataca novamente. Já deu pra entender, certo? Hoje eu não realizarei nada; mas amanhã será diferente. Amanhã eu serei outro. Amanhã eu conquistarei tudo o que quero. Hoje não. AMANHÃ!

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
(ADIAMENTO - Álvaro de Campos)